...com as ideias (completamente coerentes) de uma mente multifacetada.
-The complementation is here-
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Cinema pra ver, apenas ver
Objetos que caem no chão. Goteiras ritmadas. Passos lentos. Longos corredores escuros. Escadas. Cigarros que não acabam.
É esse o universo de Adeus, Dragon Inn, do aclamado diretor Tsai Ming-Liang.
Num cinema exibindo o filme Dragon Inn acompanhamos como voyeurs um jovem japonês à procura de homossexuais e uma bilheteira coxa que vaga pelos corredores externos e banheiros do cinema. No fim da película vemos também o projecionista, que ao ver o pote com comida da bilheteira, vai (talvez) ao seu encalço.
Essa é basicamente a sinopse do filme. Poderia dizer que nada de extraordinário acontece no filme mas, na verdade, nada acontece. Tsai usa esse "vazio" para construir planos mega-longos de beleza e poesia inconfundíveis. Os locações de seus filmes são recheadas de corredores, passarelas e passagens, mostrando seres sempre em trânsito, em busca de algo e alguém. O tempo é lento, sufocante, violento com os personagens. Não é a tôa que eles fumam incessantemente (seu filme vencedor de Cannes, Vive l´amour, é emblemático nesse respeito). Há sempre uma lacuna a ser preenchida, tanto quando um espectador do cinema, numa das cenas, não corresponde às sutis investidas do jovem japonês, ou quando simplesmente as nozes são mais interessantes do que o filme exibido na sala.
Em um momento, um dos freqüentadores (vale salientar que ele está fumando) diz para o jovem japonês que aquele cinema é mal assombrado, que fantasmas habitam aqueles corredores. E somos levados a crer que aquilo é verdade. Há uma criança pequena vendo o filme compenetradamente, uma mulher sensual que aparece de surpresa sentada atrás do jovem e senhores que mudam de lugar sem motivos aparentes... pessoas muito distintas, que provavelmente não estariam ali. E um dos personagens que está assistindo ao filme Dragon Inn é um ator que participou realmente do filme. Uma assombração, talvez.
No fim, debaixo de uma intensa chuva, há mais um número musical típico do cinema de Tsai, mas muito mais contido do que os números explosivos de O sabor da melancia. É a exarcebação dos sentimentos e emoções contidos, motivo de inúmeros textos exegéticos no meio acadêmico.
É um filme diferente do que todos estamos acostumados a assistir. Ele é arrastado e com o mínimo de falas... Mas é aquele filme que fala da gente, do nosso tempo alucinante e das relações entre os habitantes desse mesmo tempo. É um filme sobre nossas sombras e nossos próprios fantasmas.
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário